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Cortar os Pulsos PDF Imprimir E-mail
Nota Tribuna Animal: O texto abaixo de autoria de Angela Caruso teve como inspiração os textos de alguns auto-rotulados "abolicionistas animais"  que vêm atacando filosoficamente as atitudes concretas dos protetores animais. Na ultima semana voltou a circular na internet um texto de autoria do Sr. Sérgio Greif que não está sendo publicado pela Tribuna Animal em razão de o mesmo já ter declarado o seu não agrado em ver seus textos publicados em nosso portal por considerar que somos "bem-estaristas" e que apoiamos a vivissecção. Apesar de não sabermos de onde o autor tirou essas conclusões, respeitamos a sua vontade e não publicamos o seu texto que está sendo enviado publicamente pela internet e que pode ser encontrado no link a seguir: http://www.pensataanimal.net/artigos/43-sergiogreif/340-abate-humanitario 

Angela Caruso
23-Mai-2010

Estarei pensando em suicídio ou apenas em chamar a atenção?

Antes de responder objetivamente preciso falar um pouco sobre esta antiga maneira de tentar morrer. Ainda muito jovem ouvia os comentários dos mais velhos sobre indivíduos que tentavam o suicídio cortando os pulsos. Grande parte não chegava ao óbito, raramente acontecia, mas era uma prática popular se assim posso dizer, comentada especialmente, mesmo à boca pequena, por serem do sexo feminino os maiores usuários. 

Não se assuste. No mínimo está curioso o assunto. Confie, eu vou atingir o meu objetivo, mas quero compartilhar outra informação recorrente. Quem cortava os pulsos na tentativa de mostrar o seu desejo de morrer estava mandando uma mensagem com endereço certo. No fundo para a  outra vítima, o suposto causador da tragédia. Porém, o lado folclórico desse drama, e este é saudosista, o instrumento utilizado no “intento” era a famosa lâmina de barbear Gillette.

Como não se intrigar com mais um fator interessante, as tentativas de suicídio pela prática de “cortar os pulsos” ou por remédios somados a grande quantidade de álcool mantinham certo requinte, uma espécie de ritual acompanhado de fundo musical - uma canção do Lupicínio Rodrigues chamada “Vingança”. Verdade! A polícia do Rio Grande do Sul afirmou à imprensa na época em que aconteceram sucessivos “eventos”, que na maioria dos chamados, ao chegarem, encontravam uma “eletrola” ligada com um long-play, um disco de vinil girando...

Evidente que resta comentar quais seriam os motivos. Ah! Pareciam ser os mesmos, explicados somente pelas “paixões”. A maioria das vítimas sofria de uma profunda dor incompreendida e solitária.

Paixões? Falar de paixões é procurar briga. Na minha opinião paixões são tudo que faz variar o juízo seguido de sofrimento e prazer...

Como assim? Nós escolhemos nossas paixões ou somos sua vítima? Penso que sim, mas também acho que somos responsáveis por elas. Veja aí a minha “variação de juízo”.

Mesmo que seja agradável e descompromissado filosofar melhor será retomar o foco. Quero explicar por que pretendo dispor de um método antiquado - cortar os pulsos - uma vez que a avançada tecnologia e a decodificação humana oferecem centenas de métodos mais eficazes, menos impressionantes aos olhos, imperceptíveis até. Sei o que você está pensando e concordo plenamente. Tais métodos podem ser encontrados facilmente no ambiente em que “vivemos”, com o quê e com quem “convivemos”. Matam mesmo!

Porém, quero salientar antes de tudo que “cortar os pulsos” é uma questão de atitude, de postura diante da vida e do mundo. Parece fácil falar desse assunto, mas não é.

Pai, afasta de mim este cálice!

Em que pese “um novo tempo” quem não se lembra de Chico Buarque, num ato de vingança ora ruminada, penetra subliminarmente de soslaio na ditadura com sua criação fantástica: “Pai, afasta de mim este Cale-se”  ...de vinho tinto de sangue.

Dá uma olhadinha no próximo pedacinho dessa obra:

“Como beber dessa bebida amarga; tragar a dor,  engolir a labuta; 
mesmo calada a boca resta o peito; silêncio na cidade não se escuta; de que me vale ser filho da santa; melhor seria ser filho da outra; outra  realidade menos morta; tanta mentira tanta força bruta... Como é difícil  acordar calado; se na calada da noite eu me dano; quero lançar um grito desumano; que é uma maneira de ser escutado; esse silêncio todo me atordoa; atordoado eu permaneço atento; na arquibancada prá a qualquer momento; ver emergir o monstro da lagoa...”

Ele, o Chico, estava repleto de motivos para “cortar os pulsos” não é mesmo? Viver sob o regime do silêncio, ou seja, do controle do pensamento, da ação e da palavra qualquer um tem vontade de “cortar os pulsos”.

Valeu esperar. Afinal, cheguei na causa do meu possível suicídio virtual. É exatamente assim que venho me sentindo. Sob o regime da “ditadura do silêncio”.

Parece corriqueiro, sem importância, mas por vezes é insuportável. Está ficando incoveniente esta configuração de contestações que não se limitam ao já garantido espaço de cada qual. Sorrateira, invasiva, velada, tirânica e incômoda. Não bélica, mas polarizadora da intolerância. Um grande risco se revela, no ato de lançar mão sem pudor, do uso abusivo e destrutivo da crítica acusatória.

Do que estou falando? Ora, do “cale-se” implícito. Perceba que se discordar em qualquer ponto, apresentar alternativas, compartilhar possibilidades não tão absolutas, recebe a imediata pecha de “bem-estaristas” complementada com a vulgarização dos nossos sentimentos. Nós não amamos os animais! É de “cortar os pulsos” ou não? Se não, devo aceitar que me coloquem uma mordaça, me criminalizem por considerarem que devo permanecer neutra, sem me ocupar com os fatos graves e diários em que os animais são as maiores vítimas?

Enquanto fico tentando conseguir, o outro fica tentando alcançar. Não é diferente, e também me parece evidente que não viveremos sem conflitos, porém, a partida ética deveria ser como vamos geri-los construtiva e positivamente.

Entretanto os animais precisam de você e de mim. Da mesma forma. E seria conveniente aceitar a hipótese que esta “crise” retarda os efetivos benefícios. A minha principal tarefa é defender os animais e não demarcar adversários.

Depois dessa, só cortanto os pulsos...

Angela Caruso
defensora dos animais
São Paulo, maio de 2010.

“...talvez, a fantasia do animal humano seja eliminar uma idéia adversa à sua, para não ter que questionar sua própria posição.”

 
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