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Comunidade Cuiuanã recebe o título de ‘Comunidade Amiga do Peixe-boi da Amazônia’ PDF Imprimir E-mail
Noticias - ANIMAIS - BRASIL
06-Mar-2016
 
Localizada na divisa do município de Anori, a comunidade coleciona lições de união, amizade e respeito à natureza dadas pelo animal

SAADYA JEZINE
 
"Desde que a reserva foi criada, a comunidade optou por não pescar mais o animal", disse o presidente da comunidade (Euzivaldo Queiroz )
 
“Na calma do lago um bufo entre a canarana: o peixe-boi respira”.
Frase do grande literário amazonense, Aníbal Beça, que entre suas grandiosas poesias regionais retratou, em uma delas, o hábito de um mamífero tão singular, mas que, com o passar dos anos, vem vivendo uma ameaça de extinção.

Mas não há respeito mais recíproco que a relação entre os ribeirinhos amazônicos e a natureza, que faz das águas o brotar da poesia – como a de Beça – e também gera a essas populações, que vivem às margens dos rios, a fonte de subsistência, o equilíbrio ecológico e também o misticismo que enriquecem as lendas da região.

Realidade essa vivida e escolhida para ser perpetuada pela Comunidade Cuiuanã, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus (RDS-PP), na divisa com o município de Anori - distante 4h30 da sede em viagem pelo Solimões. O título de “Comunidade Amiga do Peixe-boi da Amazônia”, que adquiram na semana passada, foi concebido pelo Projeto Mamíferos da Amazônia, cujos parceiros são o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Instituto Piagaçu-Purus (IPI) e a Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa).

“Desde que a RDS foi criada, a comunidade optou por não pescar mais o animal. Agora, somos um grupo de aproximadamente 70 pessoas que se preocupam todos os dias com as medidas que temos que tomar para que as futuras gerações consigam ter esse animal também ”, destaca Francisco Freitas da Silva, presidente da comunidade Cuiuanã, enfatizando a importante decisão de não pescar mais o mamífero.

“O peixe-boi é muito importante para nós, seres humanos, mas também para a nossa comunidade como um todo. Foi pela necessidade de preservar esse animal que ficamos mais unidos”, complementa o líder.

O homem

Apesar da história do Amazonas registrar a grande “matança” - termo utilizado pelos próprios ribeirinhos - de peixes-bois na década de 40, sobretudo no Baixo Purus, percebemos que a consciência e o discurso da preservação está cada vez mais presente na vida das populações que habitam essa área.

Mesmo que a justificativa dessas ações esteja relacionada a questões econômicas e culturais muito fortes. Segundo a antropóloga Angelica Maia, o animal foi e é a fonte de alimento, de comércio, e de crenças.

“O peixe-boi era  um dos produtos mais comercializados na época do aviamento. Sua carne, couro e banha eram itens que abasteciam a indústria regional e nacional. Mas, para além do valor econômico, há referências que demonstram que esses itens eram utilizados na fabricação de tinturas corporais, escudos para guerras tribais e sua gordura era o principal elemento para rituais e signos”, afirma Angelica, que destaca em seus estudos a relação entre Paumaris - índios habitantes do Purus -e peixes-bois.

A natureza responde


A cultura da exploração do peixe-boi, recorrente em tempos passados, e a conscientização mais atual das populações no que diz respeito à preservação do animal, demonstram que, para além das consequências  resignadas, na Amazônia, há respeito mútuo não somente entre os homens, mas entre os mesmos e a natureza.

A comunidade, agora, “amiga do Peixe-boi da Amazônia”, recebeu não somente a placa que a denomina dessa forma, mas a responsabilidade que consequentemente carregará a partir desse momento e que há de preservar para as gerações futuras.

Soltura

A chegada dos quatro animais devolvidos ao seu habitat natural teve festa. O barco onde se encontravam os mamíferos que logo seriam soltos percorria as águas do Purus e chegava cada vez mais próximo à comunidade.

O barulho do motor juntou-se com os fogos de artifício. Crianças às margens, por toda a parte e visivelmente ansiosas, carregavam cartazes com dizeres que já demonstravam afeto e estreitamento da futura relação com os novos moradores: “Sejam bem-vindos amigos, peixes-bois”.

E não eram somente os comunitários. Àquele dia, a natureza também se mostrou sensível aos novos habitantes. As garças voaram, o arco-íris se formou nas águas e no céu.

Era essencialmente uma relação intrínseca entre as diversas formas da natureza. Foi um dia perfeito de boas-vindas. E se o ilustre poeta amazonense ainda estivesse vivo e tal cenário presenciado, certamente seria uma grande inspiração para uma nova poesia.

De caçadores a "melhores amigos"

A preservação  do peixe-boi é um dos maiores desafios existentes na Amazônia. O Baixo Purus tem uma herança histórica da caça desenfreada desse mamífero. Mario Jorge de Oliveira Bastos, 53, praticou essa atividade por 20 anos.

Atualmente, foi escolhido, pela Ampa - junto com Thiago Larroque Vidinha e outros três comunitários - para fiscalizar a prática ilegal dessa atividade ao longo do rio Purus.  

Um fator importante para a escolha desses sujeitos foi a percepção deles frente à possibilidade de extinção desse mamífero. “Quando eu caçava, eu via bastante peixe-boi aqui, e de uns tempos para cá, eu tenho visto pouquíssimo o animal”, afirma Mario.

“Para mim, participar dessa ação e ver tudo isso na comunidade é motivo orgulho e satisfação. Eu, como ex-caçador, posso falar que é bem melhor receber para cuidar do peixe, ajudar a preservar a sua espécie, do que ficar caçando ele. Isso é bom para mim e para comunidade também”, complementa.

Thiago Larroque Vidinha, 22, nunca praticou a caça do peixe-boi, mas o pai dele desenvolveu a atividade por anos. Quando questionado sobre o futuro dos seus filhos, ele respondeu optar pela preservação do animal. “Sem dúvida quero que meus filhos conheçam o peixe-boi. E será mais importante porque eu vou falar para eles que ajudei isso a acontecer”, afirma.

E eles fazem tudo isso orientados por especialistas. “Nós (pesquisadores) e os comunitários, através do cinto colocado próximo à cauda do peixe-boi, saberemos o que está acontecendo com eles. Informações se estão se alimentando, por onde estão nadando, serão observadas”, afirma Diogo Souza, biólogo colaborador da Ampa.

Força-tarefa

A reintrodução dos quatro peixes-bois - Mapixari, Iranduba, Paricatuba e Matupá - no seu habitat natural foi denominada como força-tarefa. A equipe, composta por aproximadamente 30 pessoas, entre pesquisadores, pescadores e comunitários, estiveram reunidos por três dias em uma excursão que iniciou em Manaus, às 4h30 de sexta-feira (26) e finalizou às 11h de domingo (28) - com a soltura dos mamíferos na RDS-PP, em Beruri, distante 173 km da capital amazonense.

Foram quatro etapas cumpridas, iniciadas com a captura deles em tanques de semi-cativeiros e finalizada na reintegração dos animais ao habitat natural. Por dois anos, esses animais serão monitorados. “Estamos nos preparando para soltar mais peixes-bois esse ano”, afirma o diretor executivo da Ampa, Jone César.

Blog: Felipe Rossoni, presidente do Instituto Piagaçu

"Há registros na história do Baixo Purus que a região agregava uma grande quantidade de peixes-bois, mas também de grande exploração do mamífero.Mas, depois da criação da reserva, houve uma transformação das comunidades. E, desde 2003, as populações que habitam essa área (da RDS-PP), vêm se inserindo em manejos e ações de conservação. Os setores Caua-Cuianã e o  Itapuru, têm equipes de vigilância que realizam o sistema de proteção nessas áreas. São ambientes seguros para pirarucus, jacarés, quelônios, e peixes-bois. Então, nesse momento, a gente pode considerar que as comunidades são as nossas maiores parceiras. Encontramos um cenário absolutamente propício à soltura desses animais. Os peixes-bois reintroduzidos estarão seguros aqui".

Conhecendo o mamífero

O peixe-boi da Amazônia é o menor dos peixes-bois existentes no mundo,  alcançando um comprimento de 2,8 a 3,0 m e pesando até 450 kg. Por ser um animal herbívoro, que come uma grande quantidade de plantas, ele favorece a navegação nos rios.

Pelas fezes e urina, o mamífero libera nutriente para pequenos animais. Ele é a base de toda a cadeia ecológica da região, mantendo assim o controle ecológico das espécies que vivem nos rios.

A caça de todas as espécies de mamíferos aquáticos foi proibida pela lei federal 1.957/67. No entanto, na Amazônia, tanto o Peixe-boi quanto outros mamíferos aquáticos são alvos da caça predatória.
 
 

 
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