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O mercado ilegal de carne canina no Sudeste Asiático PDF Imprimir E-mail
Noticias - ANIMAIS - MUNDO
13-Out-2013
KATE HODAL
tradução FRANCESCA ANGIOLILLO

RESUMO Em países do Sudeste Asiático, o consumo de carne canina tem longa tradição, e a demanda crescente fomentou um mercado negro que despacha cerca de 300 mil cães ao ano entre a Tailândia e o Vietnã, via Laos. Operações tentam coibir o tráfico, mas enfrentam a barreira da corrupção e do poder econômico dos contrabandistas.

Nguyen Tien Tung é o tipo de homem que você imaginaria encontrar em um matadouro de Hanói (capital do Vietnã): atlético, frenético e imundo, com a camiseta branca salpicada de manchas de sangue, os shorts de jeans frouxos sobre as pernas tesas e arranhadas, os pés espraiados em sandálias de plástico.

Debruçado sobre sua bancada de metal, entre duas peças de carne penduradas, o homem de 42 anos vigia seu abatedouro -um pátio de concreto a céu aberto, que dá para uma rua movimentada.

Outras duas peças sem pele, alvas e brilhantes, são lavadas por um dos primos de Nguyen. Bem ali ao lado ficam as jaulas, cada uma com cinco cães, todos mais ou menos do mesmo tamanho, alguns com coleiras.

Nguyen se aproxima de uma jaula e acaricia o cão mais próximo da porta. Tão logo o bicho começa a abanar o rabo, ele agarra uma barra de metal e acerta em cheio a cabeça do cão. Depois, rindo alto, bate a porta da jaula.

Em uma rua do verdejante bairro de Cau Giay, não muito longe do negócio da família Nguyen, fica um dos restaurantes mais famosos da cidade, o Quan Thit Cho Chieu Hoa, que só tem uma iguaria no menu.

Há cozido de cachorro, servido em sopa de sangue; churrasco de cachorro com capim-cidreira e gengibre; cachorro ao vapor com pasta de camarão; vísceras de cachorro cortadas fininhas como linguiça; e cachorro no espeto, marinado na pimenta com coentro.

Entre os muitos restaurantes especializados em carne canina de Cau Giay, esse é o mais cultuado. Nele receitas tradicionais são servidas em um ambiente tranquilo à beira de um canal.

"Eu sei que soa esquisito que eu coma aqui, já que eu tenho cachorros e nem me passaria pela cabeça comê-los", diz Duc Cuong, um médico de 29 anos, enquanto dá uma mordida num bocado de vísceras caninas que acaba de enrolar numa folha de manjericão. "Carne de cachorro é gostosa e faz bem."

Ninguém sabe ao certo quando os vietnamitas começaram a comer carne canina, mas o consumo tem longa tradição. E sua popularidade vem aumentando: segundo ativistas, hoje 5 milhões de animais são comidos por ano.

Carne de cachorro é um hit em coquetéis, reuniões familiares e ocasiões especiais. Supostamente ela aumenta a virilidade, eleva a temperatura sanguínea nas noites frias e serve como um bom auxiliar terapêutico. É vista como uma carne abundante, de alto valor proteico, uma alternativa saudável ao porco, ao frango e à vaca que compõem o menu vietnamita diário.

Alguns comensais acreditam que, quanto mais o animal sofre para morrer, mais saborosa é a carne, o que pode explicar a forma brutal como os cães são abatidos no Vietnã -muitas vezes espancados até a morte com um tubo de metal (o que pode exigir de 10 a 12 golpes); ou degolados; ou apunhalados no peito com uma faca imensa; ou ainda queimados vivos.

"Tenho gravações de cães sendo alimentados à força ao chegarem no Vietnã, um pouco como se faz com gansos para foie gras", diz John Dalley, um britânico magro aposentado, que dirige a fundação tailandesa Soi Dog, dedicada ao combate ao comércio de carne canina no Sudeste Asiático.

"Enfiam um tubo até o estômago dos bichos e enchem de arroz e água, para aumentar o peso para a venda."

O método de Nguyen para incrementar seu lucro é mais simples: "Quando quero que pesem mais, coloco uma pedra na boca do cachorro." E dá de ombros, antes de abrir a jaula para outro abate.

DEMANDA

O governo estima que haja 10 milhões de cães no Vietnã, onde a carne canina é mais cara que a de porco; um prato dela pode custar mais de R$ 100 em restaurantes elegantes. A demanda crescente levou os fornecedores a buscar além dos vilarejos onde tradicionalmente se praticava a criação para abate, chegando a cidades em todo o país. O roubo de animais -de rua ou de estimação- se tornou tão comum que ladrões chegam a ser linchados, às vezes até a morte.

Os efeitos da demanda se espalharam além-fronteiras, fazendo florescer um mercado multimilionário que despacha 300 mil cães ao ano em gaiolas de metal saindo da Tailândia, pelo rio Mekong, para o Laos e dali às fronteiras porosas na floresta, sem comida ou água, até encontrarem a morte nos abatedouros vietnamitas.

É uma indústria baseada no mercado negro, conduzida por uma máfia internacional, com apoio de funcionários públicos corruptos; não é de estranhar que ativistas lutem para debelá-la.

"No começo era um punhado de pequenos comerciantes que almejavam lucros modestos", diz Roger Lohanan, da Thai Animal Guardians Associations, organização em Bangcoc que desde 1995 investiga o mercado de carne canina. "Mas agora é um item de exportação fundamental. É um mercado livre de impostos, com lucro que varia de 300% a 500%, então todo mundo quer meter a colher nele."

HOBBY

Tha Rae é uma cidadezinha modorrenta no Estado de Sakon Nakhon, nordeste da Tailândia. Há 150 anos no comércio de carne canina, é chamada de Vilarejo Açougueiro. Os habitantes dizem que ao menos 5.000 pessoas -um terço da população- complementa os modestos rendimentos rurais com roubo, venda ou abate de cães. É um hobby lucrativo: paga-se até R$ 21 por um vira-lata.

O transporte de cães sem certificado de vacinação vigente é ilegal na Tailândia. Seu ingresso no Laos sem atestar recolhimento de taxas e tributos alfandegários, também.

Comê-los não é ilegal, mas não é popular entre os locais, a maioria dos quais se opõem fortemente ao hábito. Ainda assim, em Tha Rae, quiosques de rua perto do principal edifício da administração local oferecem nacos avermelhados de fibrosa carne canina por 300 baht (cerca de R$ 21) o quilo.

Dentro de grandes isopores azuis, entre as bancas, partes esbranquiçadas de cachorro congelado: cabeças, troncos, coxas. "O povo usa cabeça e pernas na sopa tom yum", explica uma vendedora, enquanto amamenta seu bebê, "mas dá para usar em muitos outros pratos".

Apesar de ser grande o número de cães contrabandeados anualmente para o estrangeiro, o braço tailandês da operação é controlado por pouca gente, diz Edwi Wiek, cofundador da Animal Activis Alliance, instituição beneficente que visa a extinguir o comércio.

"Sabemos quem são: onde moram, como se chamam; temos até fotos deles", continua Wiek, cuja organização recebe dados de informantes na Tailândia e no Laos. "Algumas das fotos mostram até seus carros -seria fácil rastrear as placas-mas eles se livram porque pagam um dinheirão [de propina]. E, enquanto continuarem pagando, haverá quem feche os olhos."

Segundo ativistas, uma dessas pessoas é o prefeito de Tha Rae, Saithong Lalun, que vive numa casa luxuosa, recém-construída, e se beneficiaria diretamente dos lucros dessa indústria.
Embora ele tenha se recusado a dar entrevista, dizendo que no passado a mídia causou "sofrimento" a seus eleitores, um político próximo ao prefeito aceita falar anonimamente e diz que o dirigente sabe do comércio porque está envolvido nele.

As operações policiais, porém, aumentaram, graças à grande rede de informantes trabalhando principalmente com a Marinha Real Tailandesa.

Em abril, foi interceptado um carregamento de quase 2.000 cães; em maio, outro, de 3.000, que estavam sendo enfiados em barcos para o Laos.

O líder das operações foi o capitão Surasak Suwanakesa, 45, comandante naval da patrulha regional do rio Mekong, responsável por 235 quilômetros da fronteira fluvial entre Tailândia e Laos. Sua ambição é terminar com o tráfico de carne canina de uma vez por todas. "É realmente uma vergonha para o país", diz ele, sacudindo a cabeça.

Mas Surasak, que ocupa o posto há nove meses, tem de enfrentar outros tráficos legais, como o de "yaba" (metanfetaminas), maconha e pau-rosa. No seu iPad, ele exibe imagens de blitzs anteriores, nas quais oficiais da Marinha posam em frente a seu "butim", e depois indica, num mapa, a rota dos contrabandistas de cachorros.

"Há duas rotas estratégicas principais", diz. "Os cães são coletados em aldeias ou roubados, vendidos por 200 bath [R$ 14] cada um e aí mandados a Tha Rae. Os maiores são enviados para o distrito do norte, Baan Pheng, e dali seguem para a China, enquanto os menores vão para o Vietnã. Após cinco minutos de travessia, o preço dos cachorros já aumentou dez vezes. É esse o grande estímulo."

Ricardo Cammarota/Arte FolhaRicardo Cammarota/Arte Folha
A equipe da Marinha depende de informações de locais para conseguir atacar o negócio, mas as prisões são poucas e espaçadas, segundo ativistas, e a maioria dos contrabandistas paga apenas uma pequena multa e volta ao negócio.

Os cabeças nunca são perseguidos, e os homens que correm risco real são os que tentam interromper o comércio: numa indústria que Wiek diz que pode chegar a pagar à máfia tailandesa mais de R$ 4,4 milhões por ano, pessoas como Surasak significam um grande corte nos lucros dos contrabandistas.

"O pescoço do comandante antes de mim valia 4 milhões de baht (R$ 14,2 milhões). Não sei quanto vale o meu." Ele sorri. "Eles são os mesmos, nos mesmos carros, fazendo as mesmas coisas. Quando pego um, pego com base em todas as infrações possíveis: taxas alfandegárias, vacinação, licença de transporte. Isso não se fazia antes."

ROTA


A rota usada pelos contrabandistas para chegar ao Vietnã é a Highway 8, estrada de mão dupla que atravessa as montanhas calcárias do Laos.

Ainda na Tailândia, os cachorros terão sido socados em caixas usadas para o transporte de aves ou então em jaulas pesadas de metal, cada uma com de 12 a 15 animais, seis a oito jaulas em cada caminhão, o que faz com que cada comboio valha em torno de 160 mil baht (cerca de R$ 11.260).

De noite, eles são conduzidos até a fronteira, antes de cruzar o Mekong e serem transferidos para outros caminhões. Com o apoio de informantes, placas frias e GPS, os contrabandistas não encontrarão obstáculos dali em diante. "Uma vez no Laos, nada os detêm", suspira um informante tailandês.

Tomo um ônibus na mesma rota e vejo um caminhão de cachorros viajando solitário, com as gaiolas vazias, de regresso à fronteira tailandesa.

"O tio do meu amigo ajuda a carregar os caminhões às vezes, quando ele não está trabalhando nas plantações de arroz", diz o estudante no assento ao lado do meu, que justamente começava a discorrer sobre a tradição de comer carne canina no Laos quando o nosso ônibus chega a um café.

Dentro dele, dois policiais enfiam um cachorro numa saca de arroz vazia; eles a giram e a amarram com uma corda. A saca se agita violentamente. "Talvez eles façam uma festa hoje à noite", diz o estudante, enquanto os policiais voltam a tomar seu café.

A travessia da fronteira vietnamita se dá em um posto remoto na montanha, administrado por policiais que pedem dólares para carimbar seu passaporte.

Seria fácil atravessar o que quer que fosse por aqui, ou assim parece: a estrada está cheia de caminhões de madeira levando carregamentos de pau-rosa, madeira supostamente protegida, e os policiais que não estão dormindo estão claramente ocupados negociando propinas.

A estrada segue montanha abaixo até a cidade de Vinh, passando por antigas escolas francesas do período colonial e por novas casas com torreões que parecem saídos de contos de fadas. Por ali circula um sem-fim de caminhões carregados de cães, diz Zuong Nguyen, 38, um motorista de ônibus com olhar alucinado que faz o trajeto de seis horas entre Vinh e Hanói todas as noites. "Esses caminhões sempre trazem cachorros, mas ultimamente andei vendo gatos também."

BANCAS


Numa rua ao sul de Hanói, dezenas de bancas vendem cachorro assado a filas de clientes que chegam de motoneta ou a pé. Adolescentes cortam a carne com pesados cutelos e a polvilham com um pungente tempero à base de curry, pimenta, coentro, dill e pasta de camarão, antes de enfiá-la em espetos de churrasco.

Na loja de Hoa Mo, uma mulher de 63 anos que a vida toda vendeu carne canina, um homem recebe um saco com 12 patas. "Minha mulher acaba de dar à luz, mas ela não está conseguindo amamentar", ele explica. "Tem uma velha receita de sopa de pata de cachorro que deve ajudá-la a conseguir."

Os donos de bancas recebem seu sortimento de vendedores capazes de fornecer até cem cães por dia.

Ainda assim, nenhum deles conhece a procedência da carne que adquire. Só um trabalhador, Sy Le Vanh, um garoto de 18 anos que fatia carne no negócio de sua família, arrisca dizer que os cães "devem ser vietnamitas". "Tenho quase certeza de que nosso fornecedor antes trazia cachorros da Tailândia e do Laos", ele diz, "mas eles eram sempre magrelos".

A ideia de animal de estimação ainda é nova no Vietnã, onde animais tradicionalmente são criados para a mesa ou para segurança. Por isso, em vez de falar em "crueldade", os ativistas têm preferido se valer, nas campanhas, de possíveis efeitos do consumo de carne canina -ele tem sido relacionado a epidemias regionais de triquiníase, cólera e raiva, e os ativistas têm insistido nessa última, uma vez que a expectativa local é erradicar a hidrofobia até 2020.

Durante a primeira reunião internacional sobre o comércio de carne canina, ocorrida em Hanói no fim de agosto, legisladores e ativistas da Tailândia, do Laos, do Camboja e do Vietnã chegaram a um acordo que envolve cinco pontos, entre os quais uma suspensão de cinco anos para o transporte de cães para fins comerciais através da fronteira, a fim de investigar o impacto na transmissão da raiva.

O acordo pode significar uma mudança tática significativa, diz Dalley, mas deve ter pouco impacto na extinção do comércio. "Sabemos, por meio de agentes infiltrados, que os contrabandistas já estão procurando alternativas, como abater os cães na Tailândia e transportar carne, em lugar dos animais vivos."

A fundação de Dalley pretende empregar um agente para monitorar em tempo integral a fronteira entre Laos e Vietnã, diz ele. "Haverá uma reunião para avaliar o seguimento do acordo em Bancoc, provavelmente no ano que vem, e vai ser bastante vergonhoso se eles ainda estiverem deixando passar os cachorros."

ABRIGO

De todas as nações envolvidas no tráfico canino, a Tailândia é a que mais tem adotado medidas restritivas. Quando um carregamento é interceptado pela equipe de Surasak, os cães são enviados a um abrigo do governo em Nakhon Phanom, uma hora ao norte da base no rio. Lá são numerados, medicados contra doenças como parvovirose, cinomose e pneumonia e distribuídos entre outros quatro abrigos no país.

Cerca de 5.000 cães, a maioria resgatada de traficantes, vivem hoje nesses centros, de acordo com o departamento responsável pela criação de animais na Tailândia.

Ainda assim, somente uma pequena parcela vai achar um lar, e cerca de 30 cães morrem diariamente de infecção ou doença. Dalley colabora, provendo comida, remédios e veterinários voluntários.

Mas a realidade dos cães é dura: em grande parte sua rotina será migrar de jaula para jaula, passando o resto da vida em compartimentos de concreto, disputando comida, água e espaço.

"A maioria desses bichos jamais vai ser adotada", diz Dalley, enquanto me conduz por um abrigo, tumultuado pelo alarido e empesteado pelo cheiro de 1.800 cachorros amontoados em jaulas, separados de acordo com o sexo e o estado clínico. Alguns usam coleiras, reforçando a teoria de que 90% deles eram animais domésticos.

"Há cachorros lindos aqui, mas os tailandeses só querem os de raça. Há pouco conseguimos dar uns golden retrievers para adoção, mas achar casa para mil cães sem raça definida é impossível."

Não dá para pensar neles como comida. Não porque sejam cães, mas porque são extremamente magros e têm aspecto muito doentio.

Há filhotinhos esqueléticos com patas quebradas; vira-latas sarnentos, com muco escorrendo dos olhos e focinhos; cães cobertos de vômito e fezes; e, somando-se a isso, as carcaças dos que morreram, que, em sacos plásticos, esperam para ser incineradas.

Com uma equipe de 12 pessoa para cuidar de 2.000 cães, a sobrevivência desses animais depende de sorte e, como os veterinários budistas simplesmente não consideram "brincar de deus", a equipe trata com medicamentos um cão moribundo por meses a fio.

Muitos dos cães resgatados nem chegam a Nakhon Phanom, diz Dalley. "De 1.965 cães interceptados em janeiro de 2012 em Tha Rae e registrados para o envio a um abrigo, 600 nunca chegaram. Disseram-nos que eles morreram ou fugiram, mas na verdade eles voltaram a ser traficados."

CÂNCER

O sucesso da Marinha na intercepção do comércio teve o efeito indesejado de deslocar o tráfico para lugares mais remotos, diz Wiek, cuja aliança de ativistas buscou métodos alternativos de vigilância -que incluem drones e jet-skis- para controlar o negócio.

"Nos últimos anos, desde que a Marinha e outras unidades começaram a prender mais e a fazer blitz nos matadouros, o negócio se espalhou como um câncer", diz ele. Agora atinge, a partir de Tha Rae, todo o nordeste da Tailândia.

Ativistas no país estão fazendo pressão para aprovar uma nova lei de bem-estar animal que impediria cães e gatos de ser consumidos ou comercializados para consumo. Mas há pouca chance de que tal lei tenha um efeito real. O que pode dar certo é a abordagem oposta.

Poucos membros do governo tailandês são abertamente contrários ao comércio, mas um parlamentar, Bhumiphat Phacharasap, sugeriu que regulamentar o negócio de carne canina coibiria a corrupção e garantiria que os animais vendidos fossem adequados ao consumo alimentar.

"Poderíamos dar à carne canina o mesmo tratamento dado a vacas e porcos, garantindo que fossem saudáveis, vacinados e tivessem licenças de exportação e não fossem maltratados ou torturados durante o transporte", diz ele.

"No Vietnã, cães são criados da mesma forma como se criam porcos e vacas. Vejo como algo aceitável: você cria bem, você come bem. O problema é que seríamos vistos como um povo que tortura animais, porque cachorros 'não são comida'. Nós seríamos criticados. Sofreríamos boicote. Sofreríamos sanções comerciais [do resto do mundo]."

Sua preocupação é legítima, ao menos no que diz respeito a uma cultura que lida com o Ocidente, onde os pesquisadores sublinham a ligação histórica entre homem e cão e assinalam a inteligência canina, com exemplos como o de Chaser -um border collie capaz de compreender um vocabulário de mais de mil palavras em inglês- a fim de provar que sua capacidade mental é semelhante à de uma criança de dois anos.

Mas pode-se dizer que é hipocrisia comer ovelhas, vacas, porcos e galinhas e demarcar os cães como um limite. Porcos, por exemplo, se mostram tão inteligentes como primatas em alguns testes e, segundo alguns cientistas, são mais avançados que cachorros -e ainda assim muitos de nós comem bacon sem pestanejar.

Em seu livro "Comer Animais" (Rocco), Jonathan Safran Foer ressalta a carne canina como boa fonte proteica e pergunta: "Será que podemos superar nosso sentimentalismo?".

E ainda: "Se deixássemos os cachorros serem cachorros e os criássemos sem interferência, desenvolveríamos uma fonte local e sustentável de carne, com baixo consumo de energia e capaz de envergonhar até mesmo a mais eficiente propriedade baseada na criação de animais no pasto".

É um assunto controvertido, em parte porque envolve comparar valores que diferem de cultura a cultura, sem uma resposta definitiva.

Como disse o filósofo australiano Peter Singer em "Libertação Animal", de 1975 (WMF Martins Fontes): "Protestar contra as touradas da Espanha, contra o uso de cachorros como alimento na Coreia do Sul ou contra o assassinato de focas no Canadá e continuar comendo ovos de galinhas que passaram a vida espremidas em gaiolas, ou carne de vitelos privados da mãe, de sua alimentação natural e da liberdade de esticar as pernas, é como denunciar o apartheid na África do Sul e pedir ao vizinho que não venda a casa para negros".

Curiosa sobre como essa filosofia seria vista no Vietnã, pergunto a Duc Cuong, o médico que encontrei no restaurante de Hanói, se faria diferença para ele saber que, no prato dele, podia estar o cãozinho de estimação de alguém. "Não", diz ele. "Não sendo meu cachorro, não estou nem aí."

KATE HODAL é correspondente do jornal "The Guardian" no Sudeste Asiático.
FRANCESCA ANGIOLILLO, 41, é editora-adjunta da "Ilustríssima".
 
 

 
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