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Belo Monte: Povos ainda poderão ‘ir à guerra’ contra usina PDF Imprimir E-mail
Noticias - MEIO AMBIENTE - BRASIL
24-Jul-2011
Diário do Pará

Liderança da aldeia Boa Vista e componente do Movimento Xingu Vivo, a índia Sheila Juruna já comandou manifestações, deu entrevistas ao lado de um diretor cinematográfico americano e recebeu homenagens da Assembleia Legislativa do Pará (AL).

Estudante da faculdade de geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Altamira, ela divide seus dias entre a aldeia localizada em Vitória do Xingu e o município.

Referência do movimento contrário à construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, pelo qual diz lutar desde 1989, ela aposta na união dos povos indígenas na luta contra a construção do que ela chama de “monstro”. Mais ainda: diz que eles estão dispostos a ir à “gerra” para impedir a realização da usina.

Confira a seguir a entrevista cedida ao DIÁRIO:


P: Por que você se refere à Hidrelétrica de Belo Monte como um monstro?

R: Para nós, Belo Monte vem para destruir não só a questão ambiental, mas também culturalmente e socialmente. Então, tem todo um contexto histórico do nosso povo que vem sofrendo muito com esse desenvolvimento. Para nós, pela forma como o governo vem usando isso, o desenvolvimento vem para destruir. Ele [governo] não respeitam as populações locais. Nós do povo Juruna e os povos do Xingu já sofremos muito com invasões de território, expulsão. Há todo um contexto triste e de sofrimento.
O nosso povo já foi dado como extinto. Naquela época, quando os Villas-Boas criaram o Parque do Xingu, tiraram aquele grupo de 14 povos e os Jurunas foram um desses grupos que ficaram no Parque do Xingu. Com esse conflito, o nosso grupo que vivia ali para cima do [rio] Iriri, na localidade do Iucatã, foi expulso e fomos baixando o rio. O nosso povo sempre morou ao longo do Rio Xingu, por isso nós somos povos reconhecidos como Yudja, que quer dizer “o dono do rio”. Por isso defendemos o rio, porque consideramos o rio a nossa casa. Para nós, é dentro do rio que está o céu, então tem toda uma ligação espiritual. Há uma ligação muito forte do povo com o rio, e não só do povo Juruna. É de todos os povos que habitam essa região. E vai ser a tudo isso que esse empreendimento vai atingir. Nós temos consciência de que Belo Monte não vai ser só um empreendimento, vai ser apenas uma porta para outros que virão e que estão camuflados. Não tem cabimento acreditar que Belo Monte vai ser só uma barragem. E ela não vai gerar a energia que eles estão falando. Nós conhecemos o nosso rio, ele não é suficiente, ele seca. Se esse empreendimento fosse explicado em sua íntegra, ninguém nunca falaria a favor dele, porque tem muitas coisas escondidas ai.

P: Que tipo de coisas?

R: Muita coisa. Tudo é obscuro. Em primeiro lugar, a mentira de que fomos consultados, porque nós não fomos. A minha comunidade está em uma área que vai ser atingida diretamente por Belo Monte e até hoje o governo federal nunca fez as oitivas com as nossas comunidades. O que nós consideramos como oitiva seria uma audiência só com os indígenas atingidos por Belo Monte, com toda a diversidade que nós temos no Xingu. Nós temos nove povos só no Médio Xingu e esse povo está sendo desconsiderado. O Governo usa pequenas reuniões, usa as nossas fotos para divulgar por aí que fomos ouvidos e que todo esse processo está sendo legal.
Todos os povos, antes, falavam contra Belo Monte. Hoje, depois que a Funai fez acordo com a Norte Energia [empresa responsável pela implantação, construção e operação da hidrelétrica], os indígenas não querem mais falar com medo de perder as condicionantes. São medidas emergenciais e eu não aceito. Nós temos direito a muito mais do que isso. Antes de esse empreendimento chegar até aqui, nós já estávamos aqui lutando para ter pelo menos os nossos direitos. Para mim, o meu direito não é condicionante, é direito. E o governo está colocando isso como se fosse uma condicionante: a questão das nossas demarcações de terra e de uma saúde e educação de qualidade. Isso é direito nosso, então não aceitamos a forma como eles estão tratando isso e a nossa comunidade. Das 46 condicionantes indígenas, três começaram a ser feitas e não foram cumpridas na sua íntegra. Demarcaram a área da Volta Grande, mas a desintrusão não foi feita. Hoje, os povos da Volta Grande, os Araras, estão ameaçados de morte por causa dos conflitos agrários. Por que o governo não tratou essas questões antes de se instalar esse caos que está lá? Por que não foram tomadas providências para demarcar as terras antes? Hoje há quase uma cidade dentro das terras indígenas e eles vão ser obrigado a tirar.
Os agricultores também têm os direitos deles, não estamos negando isso. O grande culpado dessa história foi o próprio Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] que assentou essas pessoas nas terras indígenas, e hoje está lá uma guerra entre os indígenas e os agricultores. Tudo isso quem está causando é Belo Monte. Não admitimos que o governo venha, mais uma vez, massacrar o nosso povo. Hoje, nós, povos indígenas do Xingu, precisamos buscar apoio onde quer que possamos, porque essa luta não é só nossa. Não existe mais diálogo, nada foi resolvido. Só piorou a nossa situação. Se o governo federal continuar insistindo com Belo Monte, vai ter guerra ainda entre os povos.

P: Você acredita que ainda é possível barrar a construção da hidrelétrica?


R: É possível, porque se o governo não nos escuta através do diálogo, ele vai escutar da nossa forma. Qual é a forma que os povos indígenas têm de luta? É pintado para a guerra. Nós já estamos preparados para essa guerra porque eu não quero mais conversar. Eu não vou mais a Brasília. Nossa luta tem que ser agora no Xingu. Agradecemos todos que nos apoiaram no mundo todo, mas agora precisamos que todo mundo venha para o Xingu porque nós temos que defender o nosso rio lá. Nós não vamos abrir mão desse direito nosso porque nós não precisamos de barragem, nós não precisamos de empreendimento de destruição para ter o mínimo que nós precisamos, que são os nossos direitos garantidos.

P: A principal preocupação dos povos indígenas é de que o rio seque?

R: Sim, principalmente. Vão secar cem quilômetros do Rio Xingu, na Volta Grande. O paredão vai cortar a floresta, vai destruir a fauna e a flora e não é considerado impacto. É muito mais fácil ouvir o governo do que a população que está lá gritando há séculos e não está sendo ouvida.

P: O governo afirma que Belo Monte vai trazer um desenvolvimento econômico com a geração de 18 mil empregos para as comunidades atingidas. O que você acha dessa afirmação?

R: Não acredito. Para isso, poderiam ser desenvolvidas políticas públicas que é de obrigação do governo. Eu acompanho tudo em Altamira e não está acontecendo nada. Não há saneamento básico, não há hospitais. Haverá geração de emprego, sim, mas para essas pessoas vindas de fora. Vai gerar emprego, mas é muito provisório. E para as nossas populações menos preparadas, que não têm uma educação de qualidade e que não têm capacitação para isso? Como é que vamos ter a ilusão de que vai gerar emprego para nós, se o mínimo que eles poderiam garantir não garantem?

P: Então os prejuízos que a usina poderá trazer serão maiores que os benefícios?

R: Sim, porque os prejuízos que Belo Monte trará são irreversíveis, principalmente para o nosso povo, culturalmente. A Norte Energia não está prevendo como esse povo vai navegar. Vão fazer um paredão onde é o rio e a estrada deles é o rio. O que eles vão fazer? Estrada para derrubar mais floresta para ir para outro município chamado Belo Monte que vai ficar a mais de 70 quilômetros da aldeia? A comunidade não aceita isso, nós temos o nosso rio livre. A Norte Energia não tem proposta nenhuma quanto à questão do rio. Ele não vai continuar navegável. E os peixes e os animais? Vão fazer museu de animais depois que estiverem todos mortos? Não vai restar quase nada. Fora as coisas que não estudaram. Não há um estudo completo da água. Eles estudaram só os lugares que se interessaram. O rio Xingu não foi estudado de uma forma adequada para dizer como vai ficar a qualidade da água. O que nós sabemos é que vamos ter seis meses de água toldada. Os meus parentes Jurunas do Paquiçamba e os Araras da Volta Grande sobrevivem da pesca. Até agora nós estamos tendo os nossos direitos violados, principalmente sobre todos os acordos que o Brasil fez. Ele não está cumprindo nenhum.

P: Vocês conhecem o projeto da Hidrelétrica de Belo Monte? Tiveram acesso a ele?

R: Eles foram à comunidade, a equipe contratada pela Funai, para fazer o componente indígena, que seria um estudo socioeconômico da comunidade nas áreas que terão impacto direto, como a minha, para saber como nós vivemos hoje e como nós viveríamos se Belo Monte sair. Foi pedido para nós mesmos darmos alternativas, perguntando o que achávamos que era preciso para amenizar o impacto. Era uma coisa muito técnica. Nós, na minha comunidade, que estudamos, não entendemos, porque era tudo muito técnico o que eles apresentam lá. Muitas questões eram sem resposta. Eles mandam um técnico de uma área que não responde pela outra área. Então muita coisa sobre Belo Monte não está tendo resposta para a comunidade.
Tem algumas comunidades que nem falam português direito. Lá em Altamira são nove povos diferentes e cada povo tem a sua cultura, sua língua e sua devoção diferente. Os únicos povos que falam português fluentemente são o povo Arara, Juruna, Xipó e Curuara. Os outros não falam português direito. Como é que esse povo vai entender direito um processo desse? Se fosse para ser uma coisa com mais clareza, teria sido feito pelo menos na língua materna para que as pessoas entendessem. A Norte Energia fez um acordo com a Funai de atender às comunidades no que precisassem até que saísse o PBA [Plano Básico Ambiental]. O PBA não foi concluído ainda e já saiu a licença de instalação. Eles fizeram um acordo de R$ 30 mil por mês para cada comunidade, para serem atendidas. Com esse dinheiro, as comunidades começaram a pedir cestas básicas, combustível, que era encaminhado para a Norte Energia. O que está acontecendo atualmente é isso. É uma briga, porque a Norte Energia não consegue cumprir nem com essas coisas que eles estão prometendo, que são emergenciais.

P: Eles dizem que os povos vão ser remanejados para outras localidades. Vocês acham que isso não vai suprir as necessidades?

R: O que estão falando é que Belo Monte não vai atingir comunidade nenhuma, que isso não é impacto. Na região de Altamira, onde acontecerá o maior alagamento, serão 678 quilômetros quadrados de alagamento. Altamira vai alagar, em média, 14 bairros, onde tem, nas áreas de risco, a maioria de população indígena.
São 17 povos indígenas morando na cidade, desaldeados. Esses povos moram todos em área de risco, que será inundada por Belo Monte. Onde essas pessoas vão morar? Eles não estão assegurando nada disso. Por isso que as populações estão revoltadas. Mas eu acredito que há possibilidade de parar Belo Monte a partir da unidade dos povos.

P: Então vocês acreditam que não há como fazer Belo Monte sem impacto?

R: Não tem nenhuma maneira de se fazer Belo Monte. Ela não pode existir de maneira alguma. Não somos contra o desenvolvimento e nem contra a geração de energia, mas há outras formas de geração de energia. O que se gasta socialmente e ambientalmente com um empreendimento de barragem poderia ser transformado em pesquisas de outras fontes renováveis. Nós estamos prontos. Se o governo quer guerra, vai ter guerra.

(Diário do Pará)
 

 
 
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