Minas Gerais: ativistas questionam UFV por uso de cães saudáveis em pesquisa científica
Noticias - ANIMAIS - BRASIL
17-Out-2015
 
MPF analisa o caso de animais doados para experimentos da universidade.
Integrantes da Sovipa protestaram em Viçosa; UFV diz seguir procedimentos.


Rafael Antunes - Do G1 Zona da Mata
Cães que estavam no Canil Municipal foram doados para pesquisas (Foto: Sovipa/Divulgação)
Cães que estavam no Canil Municipal foram doados para pesquisas (Foto: Sovipa/Divulgação)
A Sociedade Viçosense de Proteção aos Animais (Sovipa) questiona autoridades do município de Viçosa sobre a doação de 20 cães, que segundo a entidade são saudáveis, para pesquisas do Departamento de Veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

De acordo com os ativistas, as doações feitas no final de setembro infringem a 22ª cláusula de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre a universidade e a Prefeitura em 2009, que indica que apenas “cães que apresentam moléstias significativas e indicativas de zoonoses” possam ser encaminhados a pesquisas. Segundo a UFV, pesquisadores respeitam ética e normas legais para experimentos.

O Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais, que celebrou o acordo entre as partes, informou ao G1 que acompanha o caso, mas que só irá se manifestar sobre possíveis punições à universidade a partir da próxima semana.

Manifesto

Na tentativa de chamar a atenção das autoridades para o assunto, na tarde da última quinta-feira (15), integrantes da Sovipa e do Movimento Estudantil protestaram no campus da UFV. No momento em que se reuniram, a universidade
 
recebia a visita de representantes do Ministério da Educação (MEC), entre eles, o secretário executivo Luiz Cláudio Costa, que já foi reitor da instituição.

Os ativistas questionam a universidade e a nova comissão organizadora do canil, que é formada por professores e funcionários do Departamento de Veterinária e liberou os animais para as pesquisas científicas. "Essa comissão arbitrariamente forneceu 20 cachorros para uma pesquisa, que vai mutilá-los e matá-los. Na nossa visão, estes cachorros não poderiam ter sido doados dessa forma", afirmou o ativista da Sovipa e estudante da UFV, Francisco José Mendes Duarte.

Ato reuniu manifestantes no campus da UFV (Foto: Francisco Duarte/Arquivo Pessoal)
Ato reuniu manifestantes no campus da UFV (Foto: Francisco Duarte/Arquivo Pessoal)
Duarte citou a insatisfação dos defensores dos animais no descumprimento do TAC que foi assinado em 2009. "O documento diz que é preciso fazer uma ampla campanha de doação, mas não conseguimos fazer isso atualmente. Desde 2014, não fazemos campanhas maciças. O Canil Municipal passou por um período de instabilidade e a Sovipa também, mas achamos um absurdo terem feito isso sem ao menos nos consultar", disse.

O estudante também contou que atualmente estão proibidos de ter acesso aos animais que estão no Canil Municipal. "Essa comissão vetou a entrada de novos cachorros em maio deste ano para se reorganizarem. Achamos isso ótimo, é realmente necessário, mas desde então tentamos fazer um trabalho voluntário, dar banho nos animais, levá-los para passear, mas a comissão negou essa possibilidade", explicou.

Ele ainda frisou que o questionamento não se trata de uma briga entre a Sovipa e a UFV, apenas uma discussão necessária para o desenvolvimento de ambos. "É bom que fique claro que nós não temos nada contra o Departamento de Veterinária da UFV, não estamos duvidando da capacidade técnica deles, sabemos que são um dos mais importantes do Brasil. Estamos apenas questionando a filosofia de que a ciência tenha o direito de usar um animal sadio para pesquisar uma cura que nem sabem se vão encontrar. Nós amamos esta universidade, vivemos nela, mas é uma questão filosófica e um debate que a UFV tem que fazer", salientou.

Canil Municipal


Segundo a Prefeitura, a lotação máxima no Canil Municipal é de 50 cães. Após a doação para a UFV, a Sovipa informou que apenas três permanecem no local, informação que foi confirmada pela assessoria da universidade e da Prefeitura.

A assessoria da Prefeitura esclareceu que cabe ao Executivo a apreensão dos animais nas ruas, fornecimento de ração para alimentação, compra de produtos veterinários, contratação de pessoal. Informou que a UFV é responsável por manter o espaço físico, além de cuidar da saúde e triagem dos cães, classificando-os como saudáveis ou não. A Prefeitura ainda disse que a Sovipa recebe auxílio financeiro de R$ 18 mil por ano para que tenha condição de conduzir o trabalho de adoção dos animais.

Cachorro no Canil Municipal de Viçosa (Foto: Sovipa/Divulgação)
Cachorro no Canil Municipal de Viçosa (Foto: Sovipa/Divulgação)
UFV


Em nota divulgada nesta sexta-feira (16), a UFV afirmou que a participação de animais em experimentos científicos segue todos os procedimentos regulamentados por órgãos competentes e só ocorrem quando há necessidade imprescindível para o resultado de uma pesquisa. A universidade também disse que os pesquisadores respeitam a ética e as normas legais que regulamentam as práticas para experimentos.

Sobre a liberação dos cães para estudos, a universidade informou que a responsabilidade é da Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua), órgão do qual faz parte a Sovipa e que nem sempre isso resulta na morte induzida dos animais.
A UFV também citou na nota que a taxa de adoção de cães entre janeiro de 2011 e abril de 2015 foi de 30%, o que considera “muito aquém do necessário para que não haja acumulação de animais e, portanto, lotação do Canil”.

A respeito da alegação da Sovipa sobre a proibição de acesso aos animais do canil, a UFV negou que tenha impedido os integrantes de manter contato com os cães. Inclusive, em julho deste ano, eles teriam ido até o local para realizar registros fotográficos de cães que seriam encaminhados para adoção. A universidade diz ainda que reconhece a importância da Sovipa e, por isso, vem constituindo um espaço de diálogo com a sociedade, com reuniões entre o grupo e a comissão para rediscussão de possíveis atividades e parcerias no novo arranjo de gestão proposto.
http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2015/10/ativistas-questionam-ufv-por-uso-de-caes-saudaveis-em-pesquisa-cientifica.html